Capítulo 16 do livro Nós Mulheres Artistas - A produção feminina contemporânea nas Artes Visuais de Campinas - 2017

 Aqui está a capa do livro  NÓS MULHERES ARTISTAS - A produção feminina contemporânea nas Artes Visuais de Campinas, de Evelim Dias, 2017.

 

A seguir podemos apreciar uma cópia do Capítulo 16 desse livro que exibe informações de Sílvia Matos.

 

16. SILVIA MATOS

A arte, seja ela qual for, música, desenho, teatro, pintura, é importante para a formação do ser humano. Não é todo mundo que vai ser artista, mas todo mundo tem talento, seja para uma coisa ou outra. A arte faz com que a pessoa fique mais sensibilizada, tenha mais criatividade, isso falta na escola, a criatividade. (Silvia Matos)

 Conheci o trabalho de Silvia ainda na fase inicial da elaboração do projeto. Ao me deparar com a falta de materiais históricos que tratam da história da arte campineira, tive acesso ao seu livro O Ensino de Artes Plásticas em Campinas, o qual foi considerado, como já dito anteriormente, o primeiro registro sobre artes plásticas na cidade. Assim sendo, se tornou uma contribuição importante para o embasamento teórico desse livro-reportagem.

O distrito de Barão Geraldo, local onde Silvia reside e mantém seu ateliê, fez parte de minhas andanças na cidade ao ir ao encontro de minhas fontes. Encontrei a artista me esperando em frente sua casa, “ouvi o barulho do ônibus, imaginei que estivesse nele”, disse ao me cumprimentar,  me desculpei pelo atraso e entramos na casa repleta de obras, casa de artista.

 A casa dava acesso ao ateliê através de uma escada que, com cerca de um metro abaixo, cedia essa vantagem ao pé direito do ambiente, o Silvia Matos de Criatividade, que já havia servido como local de aprendizado de novos artistas, como dito anteriormente. Hoje, além de local de criação, abriga também um espaço expositivo, algo como uma galeria, com paredes brancas e iluminação apropriada, onde são realizadas exposições de Silvia e das mulheres que compõem o Grupo Antropoantro.

 A arte, enquanto profissão, surgiu na vida de Silvia já na maturidade, mas, enquanto gosto, esteve presente desde a adolescência. Ela conta das aulas de educação artística que tinha ainda no Curso Normal: “fiz curso de professora, para ser professora do primário. Eu precisava desenhar, tinha aulas de desenho no Curso Normal, com 17 anos. A aula era de desenho pedagógico, era focado no ensino, então a gente aprendia paisagem, perspectiva, desenhar os animais, sorte  minha que eu tinha facilidade”. Ao relembrar dos tempos de escola defende a importância do contato com a arte na infância e adolescência como maneira de exercitar a criatividade, ferramenta que, segunda ela, é muito importante para o desenvolvimento. “Se somos ensinados a fazer tudo de um jeito, apenas aquele sendo o correto, não temos escolha, somos treinados para aquilo e não somos livres para pensar, não pensamos”, comenta.

 Queria estudar Biologia, mas morando em Campinas, teria que se mudar, já que o curso só era oferecido na Capital. “Uma mulher sair daqui e ir para São Paulo naquela época era o fim do mundo”. Ser comissária de bordo, essa profissão não era apropriada para uma moça direita, segundo ela. Estudou para ser professora, “uma das únicas opções para as mulheres na época”, mas não pode exercer já que, para se iniciar na área, teria que lecionar em escolas distantes da cidade, nas fazendas, e isso seu pai também não permitiria. Fez um curso de secretária e falava inglês muito bem, aprendera com as vizinhas americanas. “Eu não podia ser bióloga, não podia ser aeromoça e nem professora. Abriu um curso de secretária, com a duração de um ano, eu sabia inglês. Fiz também taquigrafia e comecei a trabalhar como secretária bilíngue”.

 Desde o início da de sua vida profissional, por sua qualificação, era muito bem remunerada. Diverte-se ao se lembrar do pensamento que tinha na época: “eu ganhava mais que muitos homens, eu já era namorada do meu marido, ganhava muito mais que ele, muito mais que meu pai, pensava que meu marido não iria querer casar comigo por conta disso. Pra mim era uma fortuna, na época as multinacionais estavam chegando a Campinas e pagava-se muito bem”.

 Ao contrário do que pensava, casou-se. Vivenciou a morte da mãe e viveu por algum tempo nos Estados Unidos, uma fase difícil. “Comecei também a costurar, a casa que morávamos eram três andares, divididos entre três famílias, fiquei grávida duas vezes, quando eu voltei para cá, um dos meus filhos estava com dois anos e outro com dois meses”, comenta. Ao retornar a Campinas, após passar um período no Rio de Janeiro, Silvia entra em contato com a arte. Resiste um pouco a se matricular no curso de desenho, mas, por incentivo do marido, acaba cedendo.

Aos trinta e quatro anos inicia sua vida como artista, estudando desenho e pintura por quatro anos. Ingressa no curso de Artes Visuais, aluna da primeira turma na Unicamp, “sofri bastante na faculdade, possuía uma base teórica muito grande, fazia muito retrato, as pessoas diziam que minha arte era acadêmica, falavam que nunca seria nada, que aquilo era ultrapassado”, explica. “Para uma jovem esse tipo de critica é muito ruim, mas eu estava numa idade que eu já sabia o que eu queria”, completa.

Nessa fase de sua vida, a artista já possuía muita experiência profissional e ao fazer a pesquisa entrevistando os Arte Educadores campineiros, a mesma entrevista que daria origem a seu livro, pintava retratos dos entrevistados em aquarela, que também fez parte da composição do seu trabalho: “eu fazia na hora da entrevista o retrato, enquanto conversávamos, mas isso eu sou capaz de fazer por tantos anos aprendendo técnicas. Durante uma conversa de uma hora, eu pego um momento da pessoa. Eu fiz a exposição dos retratos, com uma obra de cada artista”, detalha.

 Atualmente atuando em conjunto com o Grupo Antropoantro, Silvia se dedica aos estudos das artes e produz, além de telas, esculturas, fotografias, instalações e intervenções. Relaciona-se tão bem com a arte conceitual quanto com a mais tradicional, procurando manter-se ativa e aberta a experimentações.

Em seu ateliê, concebe obras que abrem espaço a reflexão, explorando o uso de matérias recicladas, elementos audiovisuais, assim como o uso da tecnologia, sempre com o intuito de fazer o observador pensar a respeito do que vê. Juntamente com o Antropoantro, realiza exposições anuais tendo também projetos que realiza de forma individual, valorizando sua longa experiência no cenário artístico campineiro.

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