Kairós – Espaço Cultural Faculdades Tancredo Neves (São Paulo/SP) - 2.002
A partir de 2002, com a exposição Kairós no Espaço Cultural Faculdades Tancredo Neves, ficou estabelecida a formação do ANTROPOANTRO. Essa exposição era uma mostra paralela à Bienal de São Paulo.
Veja o convite
Comentário de Afonso Luz no Catálogo da Exposição Kairós.
Um certo ar de imaterialidade ronda os trabalhos que ora vemos expostos. Algo de sua solidez foi removido e nosso olhar transpassa as superfícies como se fosse impossível perceber a espacialidade própria de cada um deles. Uma questão que surge de imediato é a da indecisão quanto à natureza do suporte de cada obra: seriam bidimensionais ou tridimensionais? Para amenizar nossa dúvida poderíamos conjugá-los como sendo pertencentes à “arte dos objetos” de matriz duchampiana na qual as dimensões se revertem umas nas outras indefinidamente, se negando à apreensão sob as classes tradicionais de pintura ou escultura. O que, contudo, não resolveria a questão.
Há neles um aspecto fantasmagórico, como se as imagens ao se desprenderem dos corpos que antes lhes davam sustentação vagassem agora pelo espaço e se entrepusessem variadamente entre nós e o mundo, como que a filtrar nosso olhar. Nesta incerta transparência, mais uma translucidez, surge uma espécie de colagem do plano da obra sobre os diversos planos do mundo. Esta sensação se dá em função do uso que é feito do filme fotográfico, do vidro, do acrílico, do plástico, materiais que por si já evocam esta existência em espectro da realidade que experienciamos cotidianamente nesta nossa época contemporânea.
Ocorre que, para além deste partido tirado dos materiais fluidos em sua aparência, há um exercício de desconstrução do objeto imaginado pela fotografia. O registro fotográfico passa a não retratar nada para além de si mesmo. O que resta é uma imagem auto-referente, uma imagem que se reapropria dos resíduos fotográficos e os reconstrói pictoricamente em jogos de luz , cor, desenho e texturas. Um ponto alto dos trabalhos é como eles nos remetem a uma experiência da pintura fazendo uso de procedimentos que poderíamos julgar como sendo extremamente opostos a ela: a manipulação através do computador e a impressão digitalizada.
Vale ressaltar o campo heterogêneo de experiências estéticas proposto pelo grupo, muito embora possamos circunscrever estes trabalhos numa pesquisa comum de linguagem. Cada artista traz um contributo diverso em sua formação, numa abrangência que vai da lingüística à matemática, passando pela psicologia, filosofia, publicidade. Algo raro num meio cada vez mais coordenado pela escolarização da arte.
Nos “invólucros” de Silvia Matos um corpo precário se mostra imponente em seu volume e escala, nos dando a impressão de que tudo pode se desfazer a qualquer momento. Neste tecido plástico- um saco de embalagem, quase uma pele- a aplicação de um pigmento em pó mimetiza uma “película” de filme fotográfico no qual nada se vê para além do contraste de luz e sombra. Um sutil desenho, uma infinidade de riscos, parece registrar uma imagem do mundo em seu ruído absoluto.
Arruinados por este culto do efêmero que é a cidade atual, estes objetos-entulho se recompõe aleatoriamente numa “caçamba”, receptáculo do que já não é mais, do que deixou de ser, mas que contudo ainda está ali, presença a testemunhar nossa incessante desconstrução. Depois de flagrados por Olivia Niemeyer estes fragmentos são recompostos uma outra vez digitalmente e agora tudo ressurge numa pintura de tons harmônicos, como composição cromática, eternizando espectralmente este erodir que se mostra como a essência de todas as coisas.
Um verde a flutuar sobre outros verdes. Não são pinturas. Quem sabe um musgo virtual aderido ao vidro, se alimentando da luz solar que o atravessa? Algo rompe a rotina modulada de uma parede de vidro. Uma série diversa dentro da série padrão; um contratempo na programação visual do espaço que quebra seu ritmo homogêneo. Talvez sejam fotos de outras arvores, quem sabe? Um vestígio. Uma fissura na vastidão do mundo. As foto-transparências de Lalau Mayrink são colagens imaginárias sobre a superfície real.
O vermelho a se dissolver no preto e vice versa. Não há outro fenômeno visual registrado neste tríptico. Qualquer coisa mais abalaria sua beleza infernal, sedutora, cambiante. Um serpentinato de labaredas a fustigar a solidez de algo e convertê-lo numa espessa fumaça escura, ou o balé de corpos ardentes? Alice Grou nos ensina quanta vitalidade pode ser extraída de um prosaico pimentão quando se quer fotografar algo mais do que a aparência esquemática das coisas.
Vertigem. Temos a sensação de estar caindo, ao frequentar com os olhos este painel políptico de Suzana Mas. Um caleidoscópio. As imagens nos situam sobre uma arvore, da qual não sabemos mais nada do que a existência de um tronco que nos distancia do ameaçador chão de terra. Mesmo nas sombras nada das copas volumosas a sugerir algum verde acolhedor. Tudo repõe a aridez destes galhos retorcidos e a luminosidade extremada que nos cega. Uma foto que nos faz não ver.
O trabalho de Tina Gonçalves faz uso da transparência numa relação inversa. Como se uma luz interior viesse revelar algo da essência do que esta fotografado. Um objeto sustenta de modo inusitado a imagem em meio ao espaço expositivo, um aparelho hospitalar de exames radiográficos. Porém nada se vê além desta nossa obsessão de adentrar os corpos em busca de uma verdade oculta. Tudo não passa da contemplação de um acidente meteorológico: apenas gotas de chuva.
Um portão aberto nos convida a entrar. Mas em que lugar entraríamos? Fragmentos de construção, recortados e redispostos, atrapalham nossa ilusão de espaço. A transparência do acrílico e sua estruturação em mostruários, se revertem em opacidade rejeitando o espectador que desejaria ver o que lhe era oferecido. São casas que não nos dão morada. Maria Bernardes instaura a polissemia jogando com as palavras “vendo casa”.
Um corpo retraído e envolto por uma película plástica é envasado em vidro. Serializados pela forma de sua embalagem e empilhados
economicamente poderiam estar expostos em uma prateleira de supermercado como latas de sopa. Uma figura diáfana parece exaurida em sua força, impossibilitada de se libertar de uma prisão que é quase invisível. Como não sentir um dramático sufocamento através destes tubos de Vera Pellegrini.
Sob uma vitrine se lê o anuncio de uma exposição: “o desenho como instrumento”. Jornais amarelados dão conta do evento há tempos ocorrido. Inês Fernandez intervém neste conjunto de informações suprimindo o hiato de tempo que a separa daqueles trabalhos referenciais para si, reexpondo-os através do seu. Todo escrito se refere ao “desenho” que está ausente, encerrado numa caixa à que não temos acesso. Seria a palavra tomada na sua literalidade gráfica, como desenho? Uma frase manuscrita nos diz: “Eu sei desenhar. E você?”
De que ririam estas sagradas imagens? Beth Schneider sobrepõe aos rostos destas Madonas pintadas em variados estilos de época um sorriso que parece extraído de uma peça publicitária, e que é sempre o mesmo, malgrado a multiplicidade das caras que o sustentam. Um apagamento da história decorre destas composições absurdas. A recatada gratia, atributo divino destas mulheres, se converte numa despudorada felicidade. Impressas num tecido enfeitado seu aspecto vulgar e artificioso é multiplicado. “Sinal dos tempos”. Marca de uma época em que o kitsch se tornou objeto de fervorosa devoção .
Afonso Luz
Vejam as obras expostas.

Alice Grou - Vermelho Lalau Mayrink - Paisagem fantasma

Inês Fernandez -O desenho como ponte Beth Schneider - Marias

Maria Bernardes - Vendo casa Olívia Niemeyer - Andamento 1,2,3,4
Sílvia Matos - Invólucros Suzana Mas - Livre?

Tina Gonçalez - Confirmado é pneumonia Vera Pellegrini -Tubos em construção
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